Parecerá loucura pensar que todo o ritual que envolve os folguedos do samba – a roda, os cantos, os instrumentos, o ritmo, o festejo, a fantasia, a mulata provocante, o ritual carnavalesco – tem uma nota de tristeza como pano de fundo. Algumas vozes dirão: “Ora, cronista, não nos amole, o samba é só alegria, genuína, brasileira, não há espaço para a indigitada tristeza de que falas!”. Outros emendarão: “Ta ruim da cabeça esse ai! Isso é idéia de negrin pai João, que não tem samba no pé. Ouço samba desde minino e nunca, nem, ... tristeza... KKKKKKK... sabe nada!”
Ora, ora, dirá o cronista. Calma, meus senhores, não se apeguem jamais aos aspectos mais superficiais, óbvios e ululantes dos artefatos culturais do povo. Estes sempre hão de surpreender pela faixa espessa de nuanças, quase impenetrável, que acomoda a leitura tátil dos emocionados – que parece ser o vosso caso - ao óbvio mais obvio. Porém, convenhamos que a moldura da arte do povo é qual um disco de vinil, composto de ranhuras; é preciso rasgar-lhes os sulcos da superfície para extrair sons. Assim, é preciso ouvir com os ouvidos da alma, ou seja, a emocionalidade em toda sua extensão, para captar a natureza dos produtos culturais em sua raiz mais profunda.
Nisso não estou sozinho. Invoco aqui as palavras sábias de Vinicius de Morais, o branco mais preto do Brasil que, no Samba da Benção, afirma que o samba é a tristeza que balança. E chamo pro terreiro mano Caetano, que emprestando sapiência à discussão reitera, na letra de Desde que o samba é samba: a tristeza é senhora/ desde que o samba é samba é assim/ a lágrima clara sobre a pele escura/ a noite, a chuva que cai lá fora.”
O samba envolve o ouvinte, em primeiro plano pela alegria, pelo colorido de sons que sacodem os corpos e alteram vozes, em letras que cantam o encantamento da vida e convidam para a festa. Socialmente, esse primeiro plano, sugere sentimentos de solidariedade, compartilhamento, folguedo coletivo e democrático. Penso que a maioria do repertório do estilo musical tem essa marca. Outro plano envolve a melancolia, os amores mal resolvidos, a tragédia pessoal ou coletiva no campo dos relacionamentos e da labuta diária, a exemplo do despejo de uma favela ou das disputas amorosas que acabam mal, no punhal ou na faca.
Tristeza e alegria, portanto, sempre foram temáticas e sugestões do samba. Contudo, mesmo na mais pungente das alegrias ventiladas pelo ritmo, a tristeza está presente. E isso irmana nosso ritmo nacional com um co-irmão distante - o blues norte-americano – , e não nos distancia do melancólico fado, nem do hermano tango argentino. É musica de festa? É. É musica de celebração? Sem dúvida. Então, porque a impressão de tristeza que o samba, assim como o blues sugere?
O samba não tem a mesma pancada sofrida do blues, esta pode ser sentida na melancolia de solos e acordes e na voz rascante dos bluesman. É o que não acontece com o ritmo desenvolvido em nossos quintais. Se podemos falar em sutileza quando falamos em tristeza, nossa tristeza sambística é sutil. Não se oferece, precisa ser sentida da pele ao mais profundo da alma. É que o samba carrega a dor do cativo, a saudade ancestral, negreira, o desenraizamento a fórceps num século onde ainda não se falava disso.
O nosso samba, talvez pela falsa impressão de alegria perene, nunca foi explicitamente considerado como canto de resistência, de protesto. Também, nunca se ouviu falar, pela história oficial, que tenha servido de código sonoro, senha, entre rebeldes ou marca identificatória de pessoas. Só a fortíssima moldura alegre do ritmo é que fica e, a não ser por alguns aficionados, sempre reduzido ao aspecto folclórico, alegrinho e inofensivo, sem qualquer outra carga semântica de leitura.
O nosso samba é, sim, a tristeza que balança conforme cantava o nosso poetinha. Mas é preciso uma sensibilidade monstra para perceber essa particularidade no nosso ritmo nacional. Ou até para associá-lo a tristeza, mesmo que alguns enredos sofridos indiquem que nem só de alegria viveu o mundo do samba. Este que envolve, desde os primórdios, a pobreza, o preconceito, a falta de oportunidade e, por fim, o aproveitamento comercial e oportunista da marca como produto de cultura de mídia.
A alegria, meus senhores, em muitos casos esconde a tristeza. Serve de refrigério para almas extremamente maculadas por sofrimentos que marcam gerações. Por aqui não tivemos, no nascedouro do samba, campos de algodão (o branco dos capuchos não significa ausência de dor); tivemos campos de cana-de-açúcar e a embriaguez da parati (uma alegria artificial e desmoralizadora). Em todos os casos, contudo, tivemos a dor de uma raça e o status do humano ao rés do chão, talvez por um dia de alegria, afinal, como diria o poeta, a tristeza tem sempre a esperança de um dia não ser mais triste não.
por Edson de França
João Pessoa, 16 de novembro de 2010
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