Por um tempo, alguns generosos amigos, profissionais de imprensa, me instigaram a atuar na área do jornalismo cultural como critico de música. Achei-me inicialmente, além de lisonjeado pela referencia, muito apto e afoito para a empreitada. Depois, friamente, comecei a remoer e analisar o status da critica produzida por essas bandas e conclui, após ouvir a voz da razão, que a Paraíba pode até ter tradição e nomes na critica literária e cinematográfica; na área musical ainda precisamos construir um. E que eu não dispunha de tendência a bajulação, nem competência suficiente para o feito. Deixei de lado, então. Posso escrever sobre musica, mas saberei sempre das minhas limitações. Mesmo em nível de Brasil, reconheçamos, é difícil identificar um ou dois bons críticos de musica. A grande maioria não apresenta performance louvável. E não seria ali que eu queimaria meu filme Kodak 36 poses.
Para ser critico de musica de mínima competência penso ser preciso reunir alguns qualificativos. Conhecimento teórico e técnico de musica, vasta cultura humanística nas áreas sociológica, antropológica e estética e, finalmente, conhecimento e sensibilidade para perceber a evolução inerente a arte, no decorrer da história. Ah, ia esquecendo, uma boa dose de isenção e liberação das paixonites estéticas. Fora isso, teremos um esquadrão de palpiteiros, oportunistas, esnobes, mercadores de novidades, fomentadores de preconceitos estético-musicais e formatadores de mentes e gostos, todos posando de críticos. A grande maioria, artistas frustrados ou decadentes.
A autocrítica ou auto-reconhecimento da incompetência referida no inicio desse texto tem por base essa consciência. Acho que como critico musical não passaria de um escrevinhador exímio em citar frases de canções, um impostor chegado às adjetivações e um arrogante “ouvido” de gosto estético duvidoso. Provavelmente defenderia com unhas e garras alguma posição estética, baseada nos gostos eminentemente pessoais, portanto subjetivos, falíveis, para manter a pose. No mais, posaria, sem ser criador, no máximo participante menor, de algum movimento contracultural e mandaria todo o resto para o inferno numa posição etnocêntrica.
Minhas abalizadas (pra não dizer combalidas) análises se resumiriam a impressões imprecisas, pouco objetivas e eivadas dos mais infames preconceitos. Minha ignorância esnobe estaria exposta diariamente em letras garrafais num jornal amador qualquer. O escritor Wandecy Medeiros observou certa vez que a palavra “gênio” freqüenta reiteradamente a retórica objetiva dos ícones da critica brasileira. Está totalmente certo. O apelo fácil aos chavões como esse são recorrentes. É o recurso estratégico e míope do dirigismo estético.
Um dos meus professores de critica cinematográfica ensinou-me que a critica no meio jornal serve para levar ou desestimular a ida ao cinema do potencial espectador. Certo. Porém, creio eu, tem que a haver algo mais; ao critico cabe de desconfiar das suas próprias certezas e da sua pretensa autoridade que tem por marca o pouco caso com a inteligência do leitor.
A crítica, em primeiro lugar, tem que levar o ouvinte para “dentro” da musica. Assim como a critica cinematográfica, literária, teatral ou das artes plásticas. Não é possível compartilhar, por um processo de osmose, esteticidades auditivas ou qualquer outra, mas ao momento em que você é capaz de dissecar uma obra e explicá-la convenientemente leva o ouvinte a experimentar uma fruição particular, sem influencia do seu dirigismo. Para isso as competências teórica e técnica a que nos referimos.
A adjetivação apenas é vazia, improdutiva, desonesta. Além disso, cabe ao critico contextualizar a obra, seja única ou conjunto de obras de um autor ou executante, dentro da história da evolução da música e sob o choque do contemporâneo. Daí, falemos de reconhecimento por parte do ouvinte da importância daquilo enquanto bem cultural, mesmo que não curta. As chaves da compreensão da musica passam por aí. Penso que aqui a capacidade de análise isenta nos quesitos históricos e musicais são imprescindíveis, além de doses maciças de sensibilidade musical sem preconceitos estéticos.
É muito tentador, na formatação da critica, incorrer no erro de considerar informações mindinhas – traços de personalidade, manias, traços físicos e etceteras – dentro da “analise” viciada da obra. Simples, facil. Talvez inconsciente mas, convenhamos, forma mal-carater de criticar a obra de um artista. Isso cabe bem nas colunas das revistas chinfrins de boataria e é até jornalístico, dizem, não na crítica. O que deve estar em foco é a obra ou detalhes dela. O conteúdo, a forma e o contexto, nada mais. Elementos alheios a ela não interessam, devem ser pesados racionalmente e descartados, antes de serem tomados como elementos-chave na análise que vai a pulblico. São apenas lordaça de encher lingüiça e matizam o espaço da critica como armadilha para profissionais apressadinhos.
Nós temos excelentes críticos (ou analistas) para as vertentes literárias da canção, excelentes citadores de versos. Me ponho entre eles, sem medo da critica. Reconheço, sem modéstia alguma, minha capacidade de viajar pela musica de ontem e de hoje sem problemas, lembrando letras inteiras, trechos, figuras importantes e ariscando alguns acordes ao violão. E isso não faz um critico. No máximo, um jornalista de cultura. A análise (ou simplória referencia) a versos é expediente comum, corriqueiro e empobrecedor do exercício da critica. Interpretar versos e sobre ele apontar a genialidade ou a burrice de compositor ou cantor A ou B é jogo fácil, rápido, sacana. Adentrar, não especulativamente, na performance musical pura, seja na criação ou na interpretação, é outra e bem distante coisa, onde nós, sinceramente, estamos longe de chegar.
por Edson de França
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